Publicada em: 26/11/2004 às 17:08
Espelho Meu


O barato dos alisamentos
Mariana Leal

Vera (E) é cliente da filha Evelyn e aplica henê uma vez por mês
Vera (E) é cliente da filha Evelyn e aplica henê uma vez por mês

Henê, pente quente, chapinha. Precursores da escova progressiva, esses tratamentos tradicionais para alisamento de cabelos ainda têm uma legião de adeptas em comunidades de baixa renda. E a principal razão é o preço mais acessível: chegam a custar dez vezes menos do que a última moda nos salões de beleza do país.

Dona do Salão Shaloon, no Cantagalo (Zona Sul carioca), Evelyn da Silva Souza, de 44 anos, é uma defensora do henê. “Ele dá brilho, hidrata e ainda alisa. Mas tem que saber passar”, diz a cabeleireira. Ela faz cerca de cinco aplicações do produto por semana e ainda finaliza o tratamento com escova e chapinha. Cada aplicação sai por R$ 13 – enquanto nos salões a escova progressiva varia entre R$ 100 e R$ 200. No caso do henê, o tratamento precisa ser refeito de 15 em 15 dias ou, dependendo do cabelo, uma vez ao mês.

Já a sua vizinha Eunice dos Santos, 66 anos, usa o pente quente - instrumento de ferro que é levado ao fogo e aplicado no cabelo, alisando os fios através do calor. Gerente da creche Pequena Obra do Presépio, também no Cantagalo, ela começou a usar a técnica artesanal de alisamento aos 13 anos. “Na minha época de mocinha, não tinha nada dessas coisas, henê e alisantes”, lembra. Eunice recorre ao pente quente há 53 anos e garante que ele oferece melhores resultados que os tratamentos mais modernos.

Mesmo com a variedade de novas técnicas e produtos para alisar os fios, o henê representa 22% do mercado de cosméticos de transformação para cabelos, segundo a ACNielsen, empresa que realiza pesquisa de mercado. Para o setor de marketing da Embelleze, empresa de cosméticos brasileira, o constante sucesso de vendas do henê se deve à lealdade dos consumidores.

Em pó ou creme

Henê em pó é preparado no fogão
Henê em pó é preparado no fogão

Evelyn começou a passar henê ainda adolescente. “Eu usava o cabelo black power, moda na época, mas tive que abaixar quando comecei a trabalhar em salão, não ficava bem”, conta.  Desde então, ela aplica em seu cabelo e garante estar feliz com o resultado. Quando quer inovar, faz uma escova e inventa um penteado.

“Nos salões em que trabalhava, nunca fiz henê, era só escova, corte, tintura e tratamentos químicos”, afirma ela, que há cinco meses decidiu abrir um negócio próprio no primeiro piso de sua casa. Com 13 anos de profissão, Evelyn diz que passar o henê requer uma certa técnica.  “Para cabelos muito rebeldes, ele pode ser aplicado na raiz e nas pontas, mas quando é para fazer manutenção, basta aplicar na raiz”, ensina ela.

Também há opção de escolha entre diferentes marcas do produto. “Existem cremes que já vêm prontos e são aplicados frios. Eu prefiro o pó, que tem que ser preparado no fogão. Ele alisa mais rápido e dura mais tempo”, revela.

Outra dica é separar o cabelo em mechas e começar a aplicação pela parte traseira da cabeça com um pente fino. “Vejo muitas meninas passando de qualquer jeito e puxando o pente com muita força. Quebra o cabelo e a aplicação não fica uniforme”, avalia a profissional.  Para conseguir o efeito desejado, basta deixar o produto no cabelo por 45 minutos, abafado com uma touca ou com um plástico. “Quem deixa mais tempo e tem o couro cabeludo sensível pode ficar com pequenas feridas”, alerta.

Na própria família, ela tem uma cliente cativa: a mãe Vera da Silva Souza, 65. “Faço henê há muitos anos. Mas quando era mais nova era mais aplicada nos cuidados com o cabelo”, confessa Vera. Atualmente, ela marca ponto no salão da filha uma vez por mês: “Depois do henê, ela me faz uma escova e, às vezes, complementa com chapinha. Fica uma beleza!”

O quente do pente

Eunice: pente quente há 53 anos
Eunice: pente quente há 53 anos

Para Eunice, a principal vantagem do pente quente é a falta de aplicação de química nos cabelos. “Eu pinto o meu cabelo e henê deixa o meu cabelo muito escuro. Além disso, os produtos de hoje não fazem o mesmo efeito dos de antigamente”, defende. A técnica foi transmitida por gerações. Tanto suas filhas como netas já testaram e pedem o artefato emprestado sempre que querem alisar os cabelos. “Elas aprenderam a fazer olhando, eu mesma nunca ensinei”, conta Eunice, que usa o mesmo pente há 40 anos.

O produto é vendido em lojas que comercializam outros objetos de metal, principalmente, no Centro da cidade. E é muito usado em casa. Primeiro, é preciso levá-lo ao fogo. Em seguida, avaliar a temperatura. “Eu testo sempre em um pano primeiro para não queimar o cabelo”, ressalta.  Só depois, deve ser aplicado no cabelo seco, penteando e esticando.

Para dar mais brilho e proteger os fios, Eunice passa um óleo, silicone ou vaselina antes de começar.  “Faz uma fumaça danada, mas o cabelo fica lisinho. Para dormir, é só fazer uma touca”, garante. Assim como uma escova, o efeito dura cerca de uma semana, só não pode tomar chuva, molha ou sair com um vento mais forte.

“Já aconteceu de eu ficar horas num salão passando o pente e fazendo escova. Não quis passar laquê. Aí quando saí, um pé de vento botou o meu cabelo todo para a frente.  Cheguei em casa e meu marido nem acreditou que eu tinha ido ao salão”, lembra Eunice, que fez a produção para ir a um casamento.

Relaxamento e chapinha

Monique (C) trocou o henê por cremes relaxantes
Monique (C) trocou o henê por cremes relaxantes

A cabeleireira Evelyn reconhece que o que tem feito a cabeça das jovens atualmente são as técnicas de relaxamento, aliadas à escova e à chapinha. Monique Pereira, 20 anos, experimentou o henê pela primeira vez aos seis anos de idade, aplicado pela própria mãe.  Desde os 13, no entanto, aderiu aos cremes relaxantes. “Gosto do relaxamento porque o cabelo fica mais solto, mais controlado”, revela.

Mesmo não aderindo à onda do relaxamento, Evelyn faz cerca de 10 aplicações do tratamento por semana, o dobro das de henê.  “É uma verdadeira moda entre as meninas mais novas. Elas relaxam, lavam o cabelo, passam um creminho e vão à luta”, diz.

O relaxamento é aplicado na raiz do cabelo e abaixa o volume sem alisar por completo. “Dá mais versatilidade. Quando quero ir a um evento mais legal, faço uma escova. Quando quero natural, deixo secar e fico com o cabelo mais enroladinho”, explica Monique. O sucesso dos relaxamentos é o preço acessível (um kit custa de R$ 13 a R$ 15) e a durabilidade do tratamento. O efeito dura cerca de três meses, mas requer massagens freqüentes para a manutenção e recuperação da hidratação dos fios. 

Quem quer manter o cabelo ao natural, usa cremes de pentear para formar cachos e controlar o volume. “Muitas fazem relaxamento e ficam com aquele cabelo molhado, pingando, cheio de creme. Acho que a mulher fica mais chique, mais alinhada com o henê complementado com a escova”, opina Evelyn.  Para ela, o excesso de cremes para pentear pode comprometer a oxigenação do couro cabeludo e até mesmo provocar o aparecimento de seborréia.

Incompatibilidade de tratamentos

Evelyn: henê é melhor para negras
Evelyn: henê é melhor para negras

Há tratamentos que não combinam e podem causar a queda do cabelo. “Quem passa henê não pode aplicar relaxamento ou alisamento, tem que esperar mais de um ano sem usar nada”, adverte Evelyn. Quem quer trocar de química deve cortar o cabelo curto. Mas o caminho inverso é mais fácil. Segundo ela, quem faz relaxamento pode aplicar henê depois de três meses, sem maiores sustos.

O mesmo cuidado deve ser tomado com os princípios ativos de cada produto relaxante ou alisante. “Na década de 50 comecei a usar henê. Muitos anos mais tarde tentei um alisamento, mas não deu certo e meu cabelo quebrou e caiu”, lembra Eunice. Uma de suas filhas também teve queda de cabelo depois de aplicar um alisante. “A gente não sabe bem por que o cabelo caiu. Foi um choro só lá em casa”, conta.

Evelyn também alerta para os riscos do uso da escova progressiva, que utiliza uma química que contém formol e queratina para restaurar os fios e manter o cabelo liso por mais tempo. “Tem que fazer um vez por mês e o formol pode comprometer a saúde dos fios, deixando-os quebradiços com o tempo", afirma ela, sem pensar na concorrência, pois no Cantagalo os salões não oferecem o tratamento ainda.

Vera (E), Evelyn (C) e Monique: novo visual com técnica artesanal
Vera (E), Evelyn (C) e Monique: novo visual com técnica artesanal

“Minha filha, que já não mora mais aqui, também é cabeleireira. Para as pessoas da comunidade, ela cobra R$ 100 para aplicar em casa”, conta Evelyn. Para ela, custar caro não significa que o tratamento seja bom. Defensora convicta das vantagens do henê, ela prefere continuar com o que considera bom, bonito e barato. "O henê é melhor para a mulher negra”, conclui.


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