Muito além da aparência
27/04/2005 - Mariana Leal

Jana é atriz e radialista na Maré
Jana é atriz e radialista na Maré

Onde quer que vá, Jana Guinond nunca passa despercebida.  E a partir do dia 7 de maio, essa radialista-atriz-produtora-compositora, nascida em Padre Miguel, Zona Oeste do Rio, vai ser conhecida em todo o Brasil. Nesse dia, sua história será revelada em documentário exibido pelo canal pago GNT. Para ser escolhida, Jana disputou com 600 candidatas que realizaram o teste para o projeto.

O documentário faz parte de uma série chamada Mulher Procura..., que vem sendo exibida desde 26 de março. A produção é da Aquarela Filmes. “Fiquei apavorada a princípio. Depois me acostumei com a idéia de ter milhares de novos ‘amigos íntimos’ e propus à produção mostrar também o meu universo”, justifica Jana.

A jovem conduz o espectador para uma paisagem que nem sempre é vista na mídia quando se fala da riqueza cultural da cidade. “Ela trouxe a valorização da cultura negra e da consciência social, é uma pessoa super batalhadora que não tem vergonha de se assumir suburbana”, analisa Nadya Nina, idealizadora e uma das produtoras da série, ao lado de Fabrício Cannavizes.

A cada semana, até o dia 18 de junho, um documentário diferente vai mostrar o cotidiano de cada uma das 13 mulheres convidadas, como Jana. Todas estão na faixa entre os 27 e os 35 anos e são solteiras, sem filhos e donas de opiniões fortes.

O quente da Zona Norte

O ponto forte do documentário é a vida cultural do subúrbio: das festas do Ponto Chic Charm, em Padre Miguel,  ao Viaduto de Madureira, na Zona Oeste da cidade.

Baile Charme, em Madureira, foi cenário da gravação
Baile Charme, em Madureira, foi cenário da gravação

Os “cartões postais” suburbanos estão lotados de personagens locais. Até a ex-sogra gravou um depoimento sobre ela. “De toda a série, meu documentário foi o que mais teve gente participando, foram 98 pessoas. Eu dizia: ‘filmem minha galera que também vão estar me filmando”, lembra.

Sob um novo ponto de vista, Jana levanta a bola da origem das manifestações culturais cariocas. “Quem realmente dita a moda? O samba, a capoeira, o funk e o hip hop começaram a crescer no subúrbio e só depois estouraram na Zona Sul”, afirma.

Moradora da Tijuca (bairro tradicional da Zona Norte) há dez anos, ela circula bem entre os dois mundos e identifica as principais diferenças de comportamento. “Na Zona Sul, não vejo ninguém pedir a bênção para a mãe. Mesmo sendo uma mulher ‘moderna’, acho isso lindo, um sinal de respeito”, aponta. Por outro lado, na Zona Sul a informação circula mais livremente e os eventos acontecem com mais facilidade.

Ela é uma adepta das baladas suburbanas – como as periódicas festas do Barco, Às Escuras, Bonde RJ, Família Falcão e Hip Hop dos Amigos - que reúnem milhares de pessoas. Para ela, a onda do “suingue” tem se expandido e já acontecem bailes charm na sede do Clube Bola Preta no Centro.

Sonhadora de pés no chão


Há dois anos,  Jana deu uma guinada em sua vida profissional. Largou um emprego fixo como supervisora de vendas e resolveu investir na carreira de atriz, na qual estava formada desde 1998 pela Universidade da Lagoa."Fui primeiro lugar em concurso de Miss Beleza Negra. Concorri com um monte de moças bem mais novas do que eu", ri. O episódio começou a preparar o espírito de sua mãe, que passou a ver a filha com freqüência nos intervalos comerciais de TV. 

Jana decidiu ser atriz há dois anos e aposta alto na nova carreira
Jana decidiu ser atriz há dois anos e aposta alto na nova carreira

Hoje é requisitada para anúncios de lojas de eletrodomésticos, produtos de beleza, supermercados e campanhas de promoção de vendas. “Quando disse a minha mãe que ia fazer teatro, ela quis me poupar do sofrimento da vida de artista e disse que não era para gente negra e pobre. Sempre achei isso uma bobagem e segui em frente”, conta.

Sonhar nunca foi problema e estimular outras pessoas passou a ser uma de suas bandeiras. “Cada um pode ser o que quiser, as limitações estão dentro de nossa cabeça. Mas para fazer acontecer, tem que agir”, ensina.

Os alicerces para construir uma atitude segura e confiante foram erguidos durante muito tempo, com apoio da família, amigos, de uma terapeuta e da historiadora especializada em cultura afro-brasileira, Helena Theodoro.

“Comecei a me interessar em valorizar a auto-estima e o auto-conhecimento. Saber mais sobre a cultura afro-brasileira também foi importante para fortalecer minha identidade e minhas raízes”, explica.

100% Melanina

Valorizar a cultura negra e fortalecer a auto-estima dos jovens que acompanham seu programa de rádio é um de seus objetivos. Jana é integrante da ONG  Melanina, uma rede de mulheres negras que estão à frente de programas em rádios comunitárias em todo o Rio de Janeiro, como a Maré Manguinhos 91,7 FM (Leopoldina, Zona Norte), Panorama FM (Ipanema e Copacabana, na Zona Sul), Grande Tijuca FM (Tijuca, Zona Norte) e Resistência FM (Realengo, Zona Oeste).

“É importante estar falando coisas boas, para cima, que estimulem as pessoas a acreditarem no seu próprio potencial. Acredito no poder da palavra e do pensamento positivo”, discursa.

Em seu programa semanal, às quartas, das 14h às 16h, na Maré Manguinhos, ela coloca músicas para todas as idades e dá dicas culturais e históricas. “Tem a hora do Hip Hop, da música preta brasileira e também a do fundo do baú, quando toco sucessos antigos de Wilson Simonal, Copa 7, Devaneios e Originais do Samba”, conta..

O programa é recheado de dicas, desde o melhor da programação cultural gratuita até sobre como identificar a variedade de instrumentos em uma música. Histórias sobre ilustres personagens negros cariocas – como a dos os irmãos Rebouças, um arquiteto e outro engenheiro, responsáveis pela construção e planejamento do maior túnel da cidade – servem de exemplo de que é possível chegar lá mesmo enfrentando o preconceito racial.

“As pessoas estão sedentas de informação. O conhecimento que eu adquiro, eu ‘bato no liquidificador’ e coloco em uma linguagem que possa ser assimilada pela maioria”, conta.

Black is beautiful

ONG Ação Melanina: pela auto-estima
ONG Ação Melanina: pela auto-estima

Quem olha para Jana vê uma mulher segura e orgulhosa de suas raízes. De olho no poder de sua imagem, ela foi escolhida por uma multinacional para promover a venda de um protetor solar especial para pele negra em salões de beleza da cidade. E o que deveria ser uma breve apresentação do produto virou uma verdadeira palestra sobre auto-estima e história.

“Escolhia a mulher de pele mais escura para enaltecer as qualidades da pele negra. Era o maior rebuliço. A maioria ficava assustada e reconhecia que nunca tinha ouvido falar que sua pele era boa”, conta.

Outro episódio que lhe chamou a atenção, foi perceber que meninas negras de uma escola pública visitada pelas integrantes da ONG Melanina desenhavam a si mesmas como crianças louras de olhos azuis. “Temos que falar sobre isso! As crianças não estão se enxergando como negras, imagine a frustração quando se tornarem mais velhas?”, contesta.

Valorizar suas características étnicas não significa adotar posições radicais. Jana já foi adepta do alisamento dos cabelos, época em que era garota propaganda de um salão no centro da cidade. “Fiz uma escova definitiva e usava reto e comprido em 2003”, lembra. No ano seguinte, ela decidiu assumir seus cachos e voltou a usar o cabelo enrolado, bem cheio. “Faço cauterização com proteínas para fortalecer e não uso mais química nenhuma”, confidencia.

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