A vilã da adolescência

Bruna espreme mesmo sabendo das cicatrizes
Bruna espreme mesmo sabendo das cicatrizes

Popularmente chamada de espinhas e cravos, a acne tem entre os jovens suas principais vítimas. Na idade adulta, ela não ocorre com tanta freqüência e é diagnosticada como uma doença.

“A acne ocorre em todos os jovens do mundo, em 100% deles. Alguns apresentam uma intensidade maior e em outros, mais discreta, sem necessidade de tratamento”, afirma o dermatologista Sérgio Silva, chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Mário Kröeff, na Penha Circular (Zona Norte do Rio).

Segundo ele, ao entrar na puberdade, o adolescente apresenta modificações hormonais que acarretam transtornos no organismo e facilitam o surgimento de espinhas e cravos. “Os hormônios sexuais estimulam as glândulas sebáceas aumentando a oleosidade da pele. Essa oleosidade produz a acne”, diz.

“Tenho problemas com espinhas desde os 11 anos. Não gosto da minha aparência, acho meu rosto muito feio devido as marcas de cicatrizes. Sei que é errado espremer, mas minha mãe sempre espreme para mim”, diz Bruna Teodoro Sandes, de 14 anos, moradora do Morro dos Mineiros, no Complexo do Alemão (Zona Norte).

A dermatologista Eugenia Vargas, da Clínica Dr. Diógenes, no Complexo do Alemão, explica que a acne pode ser provocada ou agravada por fatores como pré-disposição individual, ciclo menstrual, estresse e má alimentação. Ela diz que o tratamento deve ocorrer na adolescência: “Quando isso não acontece a inflamação se estende até a fase adulta, que vai mais ou menos até os 30 anos”.

O dr. Sérgio acrescenta que a acne na mulher adulta já não é um processo fisiológico. “É um distúrbio hormonal acentuado ou cisto ou alterações da tiróide. No homem adulto, também pode ser um distúrbio na tiróide.”

Tratamento a preço popular

Patrícia não pôde pagar o <EM>peeling</EM>
Patrícia não pôde pagar o peeling

A acne pode ser dividida de acordo com a sua gravidade. No Grau I, surgem apenas cravos. No Grau II, também há espinhas, como pequenas lesões inflamadas e pontos amarelos de pus (pústulas). Quando aparecem lesões maiores, mais profundas, dolorosas, avermelhadas e bem inflamadas (cistos), a inflamação está no Grau III. Por último, no IV, que é mais freqüente na pele negra, aparecem grandes lesões císticas, com muita inflamação e aspecto desfigurante.

A drª Eugênia diz que o tratamento com cosméticos só é recomendado para a pele com acne nos graus I e II. “Para pessoas com acne nos graus III e IV, a pessoa deverá recorrer à ajuda de um especialista”.

Mesmo nos casos mais leves, o dr. Sérgio recomenda o tratamento com um profissional. “Espremer espinhas pode deixar marca, sim. A pessoa pode procurar um esteticista para fazer uma higienização na pele oleosa com acne, mas sem deixar de lado a orientação do dermatologista”. E dá uma dica: “É bom usar sabonete que contenha ou ácido salicílico, ou/e enxofre”.

A falta de orientação médica implica em riscos. “Os tratamentos tentam inibir a produção de óleo, mas tem que ter cuidado para não interferir na produção natural de hormônio”, alerta o dermatologista do Mário Kröeff.

Também moradora dos Morro dos Mineiros, Patrícia Wenceslau, de 22 anos, apresenta cicatrizes no rosto, em conseqüência de acne na adolescência. Há alguns meses, ela recorreu a um hospital público, após ver uma propaganda de que ele oferecia atendimento, incluindo peeling (esfoliação/escamação da pele através de agentes químicos ou físicos), pelo Sistema Único de Saúde.

“Quando cheguei lá, disseram que eu tinha que pagar R$ 40 pela consulta. Eu cheguei a pagar, mas a doutora falou que eu teria que fazer no mínimo dez sessões. Cada uma custava R$ 40”, lamenta. Nem mesmo aos medicamentos receitados Patrícia teve acesso. “Como os produtos são caros, eu não tive condições para comprar. No momento só lavo o rosto com sabonete anti-séptico mas, espero um dia fazer este tratamento e melhorar minha auto-estima”, fala a jovem, que está desempregada.

Jhonatan: poucos resultados
Jhonatan: poucos resultados

Jhonatan Lopes da Silva, 16 anos, morador do Morro dos Mineiros, enfrentou a mesma dificuldade. O rapaz começou a ter problema com acne aos 12 anos de idade. Ele chegou a se consultar com um dermatologista que receitou um creme e um sabonete. “Só comprei o sabonete, pois o creme era um pouco caro, minha mãe não pôde comprar. Como só usei o sabonete não tive muito resultado”, conta ele, que hoje não usa nada para combater as espinhas e cravos.

No Hospital Mário Kröeff, as consultas saem a preços populares (R$10), como doação para a unidade, que não tem fins lucrativos. “O setor de dermatologia oferece todo tratamento, desde cosmiatria com uso de peeling a terapêuticas”, divulga o dr. Sérgio.

Risco dos bloqueadores

A adolescente Bruna diz que nunca buscou orientação médica para a acne. Ela adota medidas caseiras e cremes, sem indicação de um dermatologista, para combater o problema.

“Já passei açúcar com sabão de coco no rosto, pois ouvi dizer que é era bom mas, não tive resultados. Agora limpo o rosto com uma loção para pele oleosa e passo uma pomada específica também para pele oleosa”, diz.

O dr. Sérgio esclarece que a mistura com açúcar e sabão poderia provocar outro problema à adolescente: “Ela está esfoliando, tentando tirar a oleosidade, mas acaba irritando a pele. Sai da oleosidade para uma irritação e ressecamento intenso”.

Segundo ele, o uso de bronzeadores e protetores solares que tampam os poros também é prejudicial, por conterem bloqueadores. O dermatologista explica que o bloqueador impede o escoamento do suor, que fica armazenado no interior da pele, e o organismo reage acarretando um processo inflamatório do tipo acneiforme, ou seja, em forma de acne.

“Não é uma acne é um processo de fora para dentro, é algo provocado. O certo é usar um protetor solar que não tampe os poros. Para isso é necessário procurar um dermatologista para saber o tipo de pele, antes de usar o protetor. Às vezes, a pessoa compra o que o vendedor indica, e são verdadeiras bombas!”, alerta o dr. Sérgio.

Chocolate dá espinha?

Quanto a possíveis alimentos, como chocolates e frituras, que provoquem acne, o dr. Sérgio diz que não há comprovação científica sobre o assunto. “Há médicos renomados que pedem para fazer uma dieta saudável, que é bom, livre de frituras, sem excessos de gorduras. Tudo que é saudável é bom, mas não é comprovado que interfira na acne. Isso é mito. Há outro mito como só vai passar quando casar...”, afirma.

Já a dr. Eugênia inclui a má alimentação entre as causas e agravantes do processo acnéico. "Alimentos ricos em gorduras, como chocolate, amendoim e coco."

“Não passo nada no rosto e nem faço dieta, gosto muito de comer sanduíches, chocolate, batata frita e etc., mesmo sabendo que isso faz mal para minha pele. Nem me importo se as meninas vão me achar feio por causa disso”, fala Jhonatan, sem saber que a acne não é só uma questão estética, mas de saúde.

Mais informações:

Hospital Mario Kröeff - Serviço de Dermatologia - telefone (21) 2136-9704.

Site Dermatologia.net

* Colaborou Fabiana Oliveira

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