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| Tatuagens delicadas e estratégicas caíram no gosto feminino |
Fadas, borboletas, estrelinhas, flores e animais estão ganhando cada vez mais espaço na pele das mulheres. Elas já representam mais de 70% da clientela dos tatuadores, de acordo com a pesquisa de doutorado da antropóloga Andrea Osório, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. “Tatuagem é um processo de embelezamento como diversos outros. As mulheres admitem isso com mais facilidade do que os homens”, analisa a antropóloga.
Andrea estuda antropologia do corpo e quer mostrar os significados contemporâneos desse processo de beleza milenar. Para isso, sua análise vai considerar elementos como idade, sexo e classe social.
Prestes a fazer a sua segunda tatuagem, Paula Beliene, 22 anos, moradora do Pechincha (Zona Oeste), confirma a tendência apontada na tese de Andrea que se reflete também nas comunidades cariocas. Ela conta que escolheu a sua primeira - estrelinhas no pescoço - a partir de desenhos mostrados pelo tatuador.
“Escolho de acordo com a estética”, explica Paula. A das estrelinhas já motivou muita paquera. “Acaba rolando aquele papo ‘nossa, que pescoço bonito!”, brinca.
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| Marcelo Kid: "Preconceito acabou" |
Já foi o tempo em que tatuagem era símbolo de marginalidade e associada à prostituição e à rebeldia jovem. “O preconceito acabou, temos clientes adolescentes até mulheres na faixa dos 50”, conta Marcelo Kid, tatuador do Kayan Studio, na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio.
Kid trabalha como tatuador profissional há seis anos e reconhece que o mercado cresceu, agregando gente de todas as tribos. “A partir de 2002, tattoos e piercings passaram a ser adereços mais comuns”, observa.
Na Rocinha (Zona Sul), o fenônemo se repete. O estúdio Agulha Nervosa, de Emerson Costa Maria, 32 anos, lota no verão. A faixa etária varia dos 13 aos 70 anos. As menores de idade só podem se tatuar com a autorização dos responsáveis, de acordo com uma legislação que regulamenta a prática. “Chego a fazer três tatuagens por dia. De quatro anos para cá, a clientela feminina cresceu e já representa 60% do movimento”, avalia o tatuador.
Ataque das borboletas
A pesquisa de doutorado de Andrea está em andamento e vai comparar dados de dois estúdios, um na Zona Norte e outro na Zona Sul do Rio. Deve ser concluída no início de 2006. Entre setembro de 2003 e janeiro de 2004, acompanhando a clientela do estúdio da Zona Norte, ela verificou que as borboletas foram, de longe, os desenhos mais tatuados entre as mulheres, seguidas de estrelas e flores. “Elas escolhem desenhos menores e mais delicados, de acordo com uma concepção do que é a feminilidade”, avalia a antropóloga.
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| Borboletas são os desenhos mais comuns entre as mulheres |
Outra moda detectada pela pesquisa foi a lançada pela atriz Débora Secco, que tatuou no pé o nome de seu novo amor, o cantor Falcão, da banda O Rappa, acompanhado da frase 'Amor verdadeiro, amor eterno'.
Também cresceu a procura por frases diversas, nomes dos filhos e letras do alfabeto chinês. Há também as mais ousadas, que buscam imagens mais fortes como escorpiões, labaredas e dragões.
Enquanto elas optam por tatuagens pequenas em locais como as costas, nuca e pés, os homens costumam fazer tatuagens maiores, em geral no braço, e com algum significado. “Os fanáticos por rock tatuam caveiras, os devotos, cruzes e santos”, compara Kid. Para o tatuador, a principal diferença é que os homens pesquisam, voltam várias vezes até, finalmente, tatuar. Enquanto elas chegam, escolhem o desenho e fazem na hora.
Em comum, está a preocupação de esconder ou revelar a tatuagem de acordo com a ocasião. “Esta é uma preocupação relativa, principalmente, ao ambiente profissional”, revela a antropóloga.
Escolhas de mulher
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| Cíntia tatuou uma flor de lótus com tribal na perna |
Cíntia Maria, 29 anos, moradora da Cidade de Deus, sabia que queria fazer uma flor, mas não tinha decidido o desenho ainda. “Vi uma flor de lótus com um tribal que fica perfeita na perna”, conta. Ela tem estrelas tatuadas no pescoço há quatro anos e diz não ter medo de se arrepender ou de enjoar. “Tem vezes que até me esqueço em que lado está. No primeiro ano, eu fazia questão de prender o cabelo para mostrar. Se eu não quiser, ninguém vê”, conta.
Ela é casada com Cidinho, da dupla funkeira Cidinho e Doca, e observa a diferença no estilo do marido. “Uma das que ele tem é uma Nossa Senhora de Aparecida porque é devoto. Eu escolho o que acho bonito, não procuro significado”, diz.
Verônica Barbosa, 26 anos, body piercer (aplicadora de piercings) e dona do Kayan Studio, tem seis tatuagens: o nome da filha, uma fada, uma flor de lótus, um sol e lua, um tribal e uma outra que ela não revela. “É uma técnica milenar que se encaixa no estilo de vida moderno. Não acho que seja só uma moda passageira”, avalia. Para quem teme que a tatuagem deixe de combinar com o avanço da idade, ela lembra que é possível remover com laser. “Envelhecer faz parte da vida e se eu tatuei é porque escolhi isso para mim”, analisa.
Clientela na comunidade
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| Emerson: queda com a violência |
Os preços das tatuagens nas comunidades é mais acessível do que no asfalto. Na Rocinha, tatua-se a partir de R$ 30, para desenhos pequenos, e na Cidade de Deus, a partir de R$ 70. No asfalto, os preços giram em torno de R$ 100, no mínimo.
“Não posso cobrar o mesmo preço que lá fora. Os clientes daqui não poderiam pagar e os de fora não viriam”, explica Kid. O trabalho e os custos de material são os mesmos. As tintas e agulhas são todas importadas e são seguidas todas as recomendações da vigilância sanitária, como a esterelização dos instrumentos em autoclaves e o uso de peças descartáveis, luvas e máscara pelo tatuador. Dependendo do tamanho, uma tatuagem pode ser feita em 40 minutos ou levar horas.
Cerca de 80% da clientela de Emerson costumava ser de pessoas de fora, mas os conflitos que aconteceram na Rocinha ao longo do ano de 2004 diminuíram esta porcentagem para 30%. “As pessoas ficavam com medo por causa da guerra”, lamenta Emerson. Em 2005, ele espera viver dias de paz e retomar a clientela perdida.
Cores certas para cada pele
Escolher as cores adequadas para cada tom de pele faz a diferença. Kid e Emerson concordam que nem todo mundo fica bem com tatuagens coloridas. “Na pele negra as cores não aparecem.Vale a pena explorar os grafismos em cor preta com sombreados cinza”, recomenda Emerson.
“As cores azul e branca são as mais complicadas, até em peles claras ficam fraquinhas”, ensina Kid. As cores vermelha, verde e laranja são as que mais se sobressaem, sempre dependendo do tom de pele. “Em peles muito escuras algumas cores não aparecem, por isso não recomendamos”, opina.
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| Verônica: "não é moda" |
As tintas atuais já não desbotam mais. Segundo Emerson, só depois de uns vinte anos é preciso retocar a cor. O que diminui o contraste é a exposição ao sol, que deixa a pele mais escura e diminui o impacto das cores. “Na semana seguinte da tatuagem, é feito um curativo e recomendamos evitar tomar sol, banhos de mar e piscina”, lembra ele. Os cuidados devem ser mantidos mesmo depois da pele cicatrizar, deve-se usar um protetor solar com o maior fator de proteção possível.
Quem faz a primeira tatuagem, acaba querendo fazer uma segunda, depois uma terceira daí em diante. “As pessoas perdem o medo da dor, gostam do resultado e começam a pensar em outras. É como um vício”, brinca Emerson.
Cláudia Schmitt, 32, moradora do Quarto Centenário, na Zona Oeste, confirma a previsão. Ela voltou ao Kayan Studio para fazer um olho egípcio (símbolo do deus Hórus) e escolheu a tatuagem pelo significado e não só pela forma.
“Já tenho um sol no pescoço que é único, nunca vi igual, é uma mistura de dois desenhos diferentes”, explica. Esotérica, ela escolheu o símbolo para ser tatuado na parte frontal do ombro. “Acredito que funciona como uma proteção contra a inveja e energias negativas”, explica.
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