Mutirão de beleza
08/04/2005 - Mariana Leal

Amigas se embelezam na casa de Monique
Amigas se embelezam na casa de Monique

Elas são uma espécie de mosqueteiras da beleza. No melhor estilo do lema "uma por todas e todas por uma", mulheres adultas e adolescentes da Zona Oeste do Rio se juntam em casa e promovem um verdadeiro mutirão estético, com direito a serviços de manicure, cabeleireira e depiladora. Além de economizarem no salão, colocam o papo em dia e promovem uma sessão de "psicanálise coletiva". Nem sempre o amadorismo dá certo, mas até hoje nenhum "estrago" foi irreversível.

Monique de Oliveira, 16 anos, moradora da Cidade de Deus, reúne as amigas Daiana Pires, 15, Michele Silva, 15, Ana Paula Conceição, 18 , Bruna Costa, 17, e Mayra Oliveira, 13, para se prepararem para o baile. Elas se ajudam mutuamente a fazer unha, inventar penteados e até trocam roupas para incrementar a produção. "É muito mais rápido do que fazer sozinha e bem mais barato do que salão", avalia Ana Paula.

As meninas se preparam para fazer bonito no baile funk que acontece no Clube Bandeirantes nos finais de semana. "Normalmente nos encontramos de 15 em 15 dias, sempre aos sábados à tarde", conta Monique. Antes de começarem a promover os encontros, as amigas sentiam dificuldade de manter a beleza em dia. "Gosto de fazer escova, mas nem sempre minha mãe queria dar os R$ 15 necessários", acrescenta a garota.

Na maior parte das vezes, o mutirão acontece na casa de Daiana, que já é tida como o "quartel-general" do grupo. O espaço já reuniu até oito meninas. "Somos organizadas e procuramos não tumultuar muito, senão a mãe dela não gosta", diz Monique.

Entre filhos e esmaltes

Nilcéa: reforçando o amor próprio
Nilcéa: reforçando o amor próprio

O sábado da beleza não é só privilégio das adolescentes. Keterine dos Santos, 25 anos, Débora Pimenta, 22; Nilcéa Dantas, 19 ; e Heidy Moares, 21, moradoras da Praça Seca, também aproveitam os sábados para resgatar a auto-estima. "Depois que tive meu primeiro filho, meu tempo acabou. Antes eu fazia unha toda semana e cuidava do cabelo. Agora, falta dinheiro, mas não abro mão de cuidar de mim", afirma Nilcéa.

Alisamento, permanente, corte, unha, sobrancelha e massagem, são as especialidades do grupo. Débora faz unhas decoradas. Nilcéa aplica o conhecimento adquirido em curso de permanente afro e se aventura em tratamentos químicos, como relaxamento, alisamento e permanente. Heidy faz sobrancelhas e depilação. Mas todas sabem fazer de tudo um pouco. "Quem não tem cão, caça com gato", brinca Nilcéa.

Na hora de ajeitar a cabeleira, elas contam com a ajuda até mesmo de uma vizinha, que empresta a prancha alisadora. "Já que não temos dinheiro sobrando, pelo menos vamos dar uma força no amor próprio, quem não se ama, não pode dar amor", filosofa Nilcéa.

Enquanto as mães se produzem, os filhos pequenos ficam por perto, brincando. No final da tarde, um lanche promove a união entre todos - amigas, filhos e maridos.

Amadoras e profissionais

Entre as amigas, tem sempre alguma mais jeitosa para determinadas técnicas. Bruna e Ana Paula já trabalharam em salões da Cidade de Deus como manicures e, depois que voltaram a estudar, só atendem sua clientela em domicílio nos fins de semana. "Quando é para as amigas cobro só a metade, cinco reais, para fazer pé e mão", explica Ana Paula. Ela aprendeu as técnicas de manicure em um curso do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Grupo faz mutirão nas tardes de sábado
Grupo faz mutirão nas tardes de sábado

Bruna e Ana têm planos mais ambiciosos para o futuro, querem fazer faculdade. Mas enquanto não terminam o ensino médio, não descartam a possibilidade de trabalhar em salões de beleza. "Enquanto a faculdade não chega, a gente dá um jeito fazendo unha para quebrar o galho", fala Ana.

Há cinco anos, Keterine e Heidy dividiam um apartamento e tiveram a idéia de promover os encontros. As amigas da vizinhança se empolgaram e mesmo depois que cada uma foi para o seu canto, com seus novos maridos, elas mantiveram a tradicional tarde de beleza.

Keterine trabalha como cozinheira durante a semana e nos sábados junta as amigas em sua casa para pôr em prática o que aprendeu sozinha. "Economizo bastante sem ter que ir ao salão para fazer unha", afirma.

Heidy gastava cerca de R$ 25 no salão sempre que queria fazer unhas, sobrancelhas e depilação. "Cabelo era só de três em três meses. Juntas só precisamos gastar com os produtos", revela.

Só que nem sempre o amadorismo dá certo. "Uma vez aplicamos uma tintura e uma mecha ficou mais clara que as outras, mas só dava para notar na luz do sol, na semana seguinte a gente consertou", lembra Heidy.

As adolescentes também já promoveram estragos, mas nada que fosse irreversível. "Uma vez a chapinha não deu muito certo e tivemos que desmanchar e fazer de novo", conta Michele.

Débora: economia e terapia coletiva
Débora: economia e terapia coletiva

Mas nem sempre a "vítima" tem coragem de confessar que não gostou do resultado. "Ficamos um pouco chateadas no carnaval, quando fizemos o cabelo da Mayra, ela não falou nada para a gente e desmanchou escondido", diz Bruna.

Psicanálise e economia

No caso das amigas da Praça Seca, elas não se embelezam só em dias de festa ou coisa parecida. "Fazemos o mutirão para ficar em casa mesmo, não é sempre que dá para sair", conta Heidy.

Para elas, mais importante do que a economia, vale a oportunidade de estarem juntas e trocarem conselhos. "É o melhor momento da semana", empolga-se Nilcéa.

Sem ter com quem confidenciar as aflições de conciliar os papéis de mães, esposas e estudantes, elas contam com o ouvido das amigas. "A gente fala sobre tudo e rola muita besteira, trocamos conselhos até sobre o que fazer na hora de namorar", revela Keterine. "Não é pela beleza, é mais pela distração, é o momento em que podemos desabafar, contar o que estamos passando", reforça Heidy.

As adolescentes concordam. "Falamos sobre o que está rolando na escola e as novidades que aconteceram", conta Monique. As meninas são amigas desde criança e reconhecem que os encontros de beleza fortalecem a amizade - mesmo morando uma do lado da outra, Monique e as amigas quase não se encontram durante a semana. "É muito importante valorizar este laços, sempre ouço e dou conselhos. É bom saber que tenho com quem contar na hora que precisar", conclui Ana Paula.

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