Donas da festa
28/05/2005 - Mariana Leal

Patrícia é uma das raras DJs
Patrícia é uma das raras DJs


O equipamento é caro e o trabalho é cansativo. Mesmo assim, o sonho de ser DJ fascina cada vez mais as jovens ligadas ao hip hop. Elas encaram um ambiente ainda dominado pelos homens, não reclamam de trocar o dia pela noite e sabem que têm que ser boas porque ninguém vai mantê-las nas pick ups só porque são bonitinhas. A recompensa maior está na pista cheia.

Como são elas que selecionam as novas tendências, escolhem as músicas, mixam e fazem efeitos no som, sabem que são, no fundo, as verdadeiras donas da festa. “O DJ tem que agradar ao público, tem que saber o que está tocando e sempre apresentar coisas novas”, define Patrícia Vieira, de 21 anos, mais conhecida como a DJ Tipá.

 

Uma das poucas mulheres a comandar as pick ups no cenário hip hop carioca, ela toca aos sábados na festa The Tribes, da boate Bunker, em Copacabana, na Zona Sul. Mas já participou de eventos grandes como Vivo Open Hair, Coca-Cola Vibezone e de shows com O Rappa e Gabriel O Pensador.
 

Moradora de Botafogo, Zona Sul do Rio, Tipá é ligada em ritmo desde bem cedo.  “Meu pai sempre dizia que eu devia ser DJ, já que ouvia música o dia inteiro”, conta. Um belo dia, ela resolveu encarar o desafio e pôr a mão nos discos para realizar seu sonho de menina.

 

Logo descobriu que no hip hop, o papel do DJ é muito mais do que simplesmente animar a festa. É, principalmente, mixar as músicas e introduzir efeitos, como o scratch e o beat juggling (ato de manipular a batida de bumbo de duas músicas e fundir uma com a outra).


"Coisa só de homem"

Desvendar os mistérios dos toca-discos não é fácil. Cláudia Fontoura Silva, 19 anos, DJ do grupo de rap Anastácias, sabe bem disso. Ela já descobriu também que a estrada é longa. Cláudia freqüenta a oficina de DJs comandada pelo DJ Nino, 29 anos, no Sesc Madureira, na Zona Norte do Rio.

 

“Eu pensava que sabia alguma coisa, mas só agora estou vendo que é preciso ter uma técnica apurada e isso requer prática e um bom ouvido”, reconhece Cláudia. Nino está ensinando os primeiros passos, que começam com a mixagem, e em seguida passa para as técnicas de performance.

 

Ele dá aulas também na oficina Afro Hip Hop, em parceria com o Afroreggae, em Vigário Geral, Zona Norte do Rio. Ali as mulheres ainda são minoria. Mas as poucas alunas são aplicadas. Como Gláucia Miranda, de 17 anos. “Desde os 13 anos, quando comecei a curtir o hip hop, achava bacana a função do DJ, mas achava que era coisa só de homem”, diz a moça, moradora de Coelho Neto, na Zona Norte. 

 

Até encarar uma festa, os DJs de hip hop - homens ou mulheres - acabam seguindo trajetórias parecidas. Eles precisam comprar um kit básico (fone, duas pick ups e um mixer), mas esse é um investimento alto. Uma pick up usada pode custar de R$ 500 a R$ 1000 e um bom fone até R$ 500. Um mixer novo sai por cerca de R$ 5000.

Tipá, por exemplo, é DJ há quatro anos. Mas só juntou dinheiro para comprar seu próprio equipamento depois de um bom tempo na noite.  

 

Desilusão com o funk

Cláudia é novata na oficina do Sesc
Cláudia é novata na oficina do Sesc


Nino lembra como comprou sua primeira pick up e começou a seguir um sonho de adolescente. “Troquei minha bicicleta com um camarada que estava abandonando este lance de DJ”, recorda. Ele ingressou na profissão por pura paixão. “Desde a escola tinha um amigo que curtia som e a gente começou a improvisar com um toca-discos 3 em 1, na época em que nem existia CD”, lembra.

 

DJ desde 1994, Nino começou a tocar nas festas da Furacão 2000 e na People’s. “Abandonei o funk desiludido com o rumo que as músicas estavam tomando, muito pornográficas e de exaltação aos ‘comandos’”, conta.

 

A paixão voltou em 2000, quando conheceu a turma do GBCR na Rocinha nas noites de hip hop na Lapa. “No break, peguei amizade com a galera do hip hop e isso me impulsionou. Não rolava grana, mas já estava feliz de ter encontrado minha turma”, conta.

Na lista da gravadora


Um bom repertório em vinil é uma preciosidade que precisa ser sempre renovada. As fontes de abastecimento são os sebos, gravadoras e lojas especializadas em rap.

 

“Para encontrar coisa boa, só mesmo indo a São Paulo”, sugere Nino. Tipá teve a sorte de ser incluída na lista de DJs que recebem os lançamentos em vinil da gravadora Universal, dos Estados Unidos. “Na internet, também é possível fazer boas compras, mas é tudo muito caro”, lamenta.

 

Como a falta de grana é quase uma regra para quem quer começar no ramo, o caminho pode estar em fazer amizades com quem já está no meio e ir formando grupos. “Para poder ensaiar e ir pegando a prática, que é o que traz o aperfeiçoamento do DJ, só mesmo com uma boa amizade”, sugere Nino.

 

Esta lição, sua aluna, Cláudia, do Anastácias, já aprendeu. “Não adianta ficar só na aula. Já comecei a praticar com outros amigos”, conta.

 

Cansada das baladas

 

No começo da carreira, estar sempre na balada é a melhor parte. Mas com o tempo, o trabalho acaba ficando bem separado da diversão. “Eu já não curto mais a noite como antigamente. Hoje, é bem mais divertido ir para a casa de amigos, fazer um jantar e ficar mais tranqüila”, confessa Tipá. 

 

Para conquistar espaço nos agitos noturnos ela teve que provar que era capaz de manter a animação da galera e enfrentar atitudes machistas. “Tem homens que acham que são donos do rap. Muita gente pensa que ser mulher é mais fácil, que se consegue emprego só por ser bonitinha. Pode até acontecer, mas ninguém segura uma festa durante meses se não for bom”, conta. 

 

Além da disputa de vaidades, comum ao meio, existem as dificuldades naturais da profissão, como trocar o dia pela noite. “E ainda tem que carregar o peso do case (estojo) de discos e do equipamento, além de ficar esperando até o final da festa, até de manhã, para receber”, ressalta Tipá. 

Nino confirma que para vingar como DJ, só mesmo com muita paixão e talento. “É totalmente instável e cansativo. Quem quer só tirar onda não segura a peteca”, opina.  

 

Pista é termômetro

 

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Scratch é 'instrumento de percussão'

A seleção das músicas a serem tocadas depende de cada tipo de público. Mas o talento do DJ é sempre medido pela empolgação na pista de dança. “Para festa de patricinhas, só dá para tocar o rap mais comercial. Já nas noites da Lapa, pode tudo, até o rap underground dançante”, conta Tipá. Um dos preferidos da DJ é o rapper MV Bill, que tem diversas músicas que esquentam a festa.

 

“O ponto principal é o feeling, manter o clima da festa no vibe (lá em cima, sem monotonia). Tocar muito underground pode prejudicar, tem que combinar com comercial”, afirma Nino.

Também é necessário bom senso na hora de encadear uma música na outra e unir as batidas sem embolar. “Para perceber estas nuances, é preciso ter um ouvido afinado e conhecimento da música, senão fica difícil”, conta Cláudia.

 

O efeito de scratch, o clássico movimento que o DJ faz com os dedos sobre o disco de vinil e que faz um som similar a um arranhão, é técnica cheia de segredos. “Lá fora, os scratchs são tão técnicos que chegam a ser escritos em partituras, em notas. Aqui, a gente tem que se guiar pelo sentimento mesmo, é tudo suado”, compara Nino.

E ter um ouvido educado para a música é fundamental para um bom aprendizado. “O scracth é como um instrumento de percussão, complementa o ritmo, não é só um barulho sem controle algum”, diz Cláudia.

 

Resgatar vidas

 

O DJ de hip hop pode trabalhar junto a grupos de rap, tocar em casas noturnas e festas e ainda ensinar outras pessoas a arte de mixar músicas. “São várias frentes de trabalho. No Rio, ainda há poucos DJs para muitos grupos de rap, está muito precário. Eu escolhi dar aulas e resgatar vidas”, conta Nino.

Sempre que começa uma nova turma de jovens em comunidades de baixa renda, ele faz questão de contar sua experiência e dá dicas de como ser bem-sucedido profissionalmente. 

“É uma luta danada, são milhões de dificuldades. Por isso, é importante encontrar uma turma bacana que ajude a evoluir. Se ficar cercado de pessoas negativas, as coisas não andam para frente”, diz Nino.

 

Incrementar a performance e as habilidades para mostrar o que sabe em concursos e festas é a meta de todos os DJs, profissionais ou não. “Meu sonho é participar de um concurso internacional”, revela Tipá.  

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