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18/08/2004 - Mariana Leal

Prática do <EM>body board </EM>garante corpo definido e contato com natureza
Prática do body board garante corpo definido e contato com natureza

Em tempos de Olimpíadas, a maioria das atletas chama a atenção não só pelo talento como pela excelente forma física. E mostra que é possível ter pernas bem torneadas, barriga-tanque e bumbum durinho mesmo mantendo-se longe das academias de ginástica. O segredo está na prática de esportes, como ciclismo, atletismo, boxe tailandês, surfe e futebol.

“Ir para academia é muito chato, fica naquela mesma série de sempre, não acontece nada de novo”, opina Daniele de Souza, 22 anos, moradora da Rocinha (Zona Sul). Há cinco anos, ela encontrou no body board um jeito de definir melhor a musculatura das pernas, barriga e dos glúteos e se livrar da rotina. “Na água não tem como ficar parada, o tempo todo estamos batendo o pé.  E é muito mais divertido curtir a natureza”, conta ela.

Kátia ganhou músculos pegando onda
Kátia ganhou músculos pegando onda

O baixo custo das atividades físicas ao ar livre é mais um atrativo. Projetos comunitários, como a escolinha de surfe da Rocinha (Zona Sul) e as aulas de capoeira na Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel (Zona Norte), são gratuitos. Aulas de boxe tailandês podem sair a R$ 25 por mês; já caminhadas e ciclismo, por exemplo, não custam nada. “Os melhores esportes para os glúteos são aqueles que trabalham a extensão do quadril. Fazer agachamentos, subir ladeiras e fazer caminhada também trabalham estes músculos”, explica Danilo Salgado, de 28 anos, professor de Educação Física e instrutor de capoeira do Clube Escolar Léa Oliva, em Benfica (Zona Norte). 

Para quem tem pressa em ver a diferença no visual, o professor acrescenta: “Na academia, o treinador vai elaborar uma série de exercícios específicos para o bumbum, o resultado pode até ser mais rápido. Por outro lado, um esporte trabalha outros músculos também e tem na parte cultural e social um incentivo a mais”.

Academia na praia

As meninas marcam presença na turma da escolinha de surfe de Wanderley Silva, 29 anos, em São Conrado (Zona Sul). Com a ajuda de comerciantes locais, Ley - como é conhecido o professor - ensina body board a crianças e adolescentes da Rocinha há três anos e se orgulha do empenho de suas alunas. “Elas são as que levam mais a sério, quase não faltam”, diz.

Remando, batendo perna com o pé-de-pato e se equilibrando na prancha para fazer as manobras, as body boarders trabalham o corpo inteiro. “Sinto que meus braços, coxas e pernas estão cada vez mais fortes. A saúde melhorou muito, é difícil eu pegar uma gripe”, conta Kátia Gomes, de 15 anos, há um ano na escolinha. “Para fazer as manobras, como o 360º, a força vem toda do abdômen. Isso aqui é um exercício completo”, explica Amanda Neves, de 14, aluna de Ley há um ano e meio.

Amanda encara o esporte como lazer
Amanda encara o esporte como lazer

A praia em dias de sol é um cenário estimulante, mas elas treinam sempre que não está chovendo, faça calor ou frio. “Disciplina é um dos elementos fundamentais em qualquer esporte”, ensina Ley. Para as alunas, cada aula é uma grande diversão. “É esporte e lazer ao mesmo tempo. Mas desde que pego onda, quase não saio da água. Sem essa de ficar pegando sol na areia”, afirma Amanda.  O corpo vai se moldando aos poucos, pernas, braços e barriga são os mais beneficiados. “Era muito magrinha, minhas coxas, as batatas da perna e o braço evoluíram, estão mais potentes”, orgulha-se Kátia.

Com o esporte, une-se o útil ao agradável. “Nas academias as pessoas têm seriedade, procuram não faltar, mas a finalidade é um corpo bonito e não o prazer de estar ali. No esporte, o estímulo é a atividade em si e o corpo saudável é uma conseqüência”, analisa Danilo.

Socos e pontapés

Mas muitas vezes a praia da galera é outra. No boxe tailandês, chutes, socos e joelhadas são alguns dos golpes que mais demandam esforço de braços e pernas. “A malhação é muito puxada, não deixa nada a dever para uma academia de ginástica”, conta Kátia Simões, 45, que durante anos fez musculação. Moradora do Lins (Zona Norte), ela se apaixonou pelo esporte na primeira aula e hoje treina três vezes por semana sob a orientação do professor Jutu.

“Na Tailândia, as meninas também lutam e começam aos seis anos de idade. É claro que um esporte de contato pode causar machucados, os golpes são dados com a canela, com o cotovelo e com os joelhos. É raro de acontecer nos treinos, só mesmo nas competições”, explica Jutu, 48, que é presidente da liga carioca de Muay Thay, como o boxe tailandês também é chamado.

A dupla Kátia e Andréia (E) entra em forma entre socos e chutes
A dupla Kátia e Andréia (E) entra em forma entre socos e chutes

Na quadra da AMALAPA, na Lapa (Centro), metade da turma é formada por mulheres.  “Elas começaram a chegar nos últimos cinco anos, quando a luta e suas variações, o Tae Bo e o aeroboxe, ganharam espaço nas academias”, lembra ele. Para evitar contusões, aquecimento e alongamento são sagrados. Só depois começam as simulações de luta, em pares, com chutes e socos aplicados em almofadas acolchoadas. “Na aula a gente esquece tudo, é uma hora que você só pensa nos seus movimentos e nos de seu companheiro. O estresse fica todo para trás”, entusiasma-se Andréia Carvalho, 27, moradora de Alcântara, em São Gonçalo (Região Metropolitana).

“Não considero um esporte violento, é basicamente atacar e defender, mas aqui nunca ninguém se machucou”, opina Kátia. Ao fortalecer músculos e dar noções de ataque e defesa, as lutas proporcionam uma sensação de segurança para as mulheres. “Meu propósito não é bater em ninguém, mas me sinto mais segura para me defender”, acrescenta. “Quando a gente começou, o Jutu avisou que dali para frente a gente não podia ficar mais brincando de dar chutes e socos. Nossos golpes agora têm peso!”, destaca Andréia.

Ao som do berimbau

Natália: capoeira é força e ritmo
Natália: capoeira é força e ritmo

Livre de sua fama marginal, a capoeira também tem atraído cada vez mais mulheres. “Exercícios repetitivos causam estresse em quem pratica. A capoeira é dinâmica, descontraída e modela o corpo sem masculinizar”, explica Glauco Miranda, o contra-mestre Chicote, professor de educação física e de capoeira.  Há três anos ele ensina a luta de graça para os jovens da comunidade do Morro dos Macacos e cobra R$ 15 para os moradores do asfalto. As aulas acontecem em plena Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel (Zona Norte).

Os benefícios para quem pratica o esporte estão além do condicionamento físico. “Comecei na capoeira por ser uma atividade cultural. E o corpo fica bem torneado também. Que outro exercício enxuga as gordurinhas das costas?”, questiona Natália Rios, 20, moradora de Vila Isabel e uma das alunas de Chicote. Ao som do berimbau, as aulas reúnem exercícios de ritmo, música e gingado. Mas na hora de contabilizar os resultados do exercício é a modelagem do corpo que ganha destaque. “As pessoas chegam até a comentar que você está mais sequinha e mais fortinha”, conta Natália.

No embate com os homens, comuns nas rodas, as mulheres não se intimidam e procuram jogar com ousadia. “A gente acaba jogando com mais cuidado para não machucar, mas elas não estão preocupadas com isso, soltam o pé mesmo”, opina Davi Alves, 21, capoeirista e morador do morro dos Macacos. Com diferentes estilos –  regional, jogo de golpes altos e rápidos, e angola, com movimentos lentos e rasteiros –, a capoeira pode demandar mais ou menos força muscular e capacidade de explosão do atleta. No entanto, nem tudo são músculos. “Dependendo do ritmo do jogo, o que vai ser importante é a técnica aliada à malícia. É aí que elas disputam de igual para igual”, observa Chicote.

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